O que a briga bilionária da família dona da Ray-Ban ensina sobre sucessão

O que a briga bilionária da família dona da Ray-Ban ensina sobre sucessão

Um patrimônio de 46 bilhões de dólares, oito herdeiros. E uma disputa que ameaça desmontar o legado de um dos maiores empresários que a Europa já teve.

Esse é o cenário atual da família Del Vecchio, dona da Essilor Luxottica, gigante que controla marcas como Ray-Ban e Oakley. 

Leonardo Del Vecchio passou a vida construindo um império. Passou os últimos anos de vida tentando garantir que esse império sobrevivesse a ele. E, mesmo assim, quatro anos após sua morte, o que se vê é exatamente o oposto do que ele planejou.

Se você lidera uma empresa familiar, ou assessora uma, esse caso vale a leitura até o final. 

Porque o erro que colocou esse império em risco não foi falta de dinheiro, nem falta de planejamento. Foi uma decisão que parece justa no papel e se torna perigosa na prática. Vamos lá? 

A história

Leonardo Del Vecchio fundou a Luxottica em 1961. Transformou a empresa na maior fabricante de óculos do mundo. Em 2018, se uniu à companhia francesa Essilor, criando um grupo verticalizado que vai do design à loja física.

Antes de morrer, ele estruturou a sucessão com cuidado aparente. Distribuiu participações iguais, de 12,5% cada, entre oito herdeiros: seis filhos de três mães diferentes, com idades entre 22 e 69 anos, sua viúva e um enteado. 

Para evitar que o comando ficasse concentrado em uma única pessoa, colocou executivos de confiança na presidência da holding e da operação.

O problema apareceu exatamente onde ele tentou proteger a família: na exigência de consenso quase unânime para qualquer decisão importante.

Como resume Alessandro Minichilli, professor de governança da Universidade Bocconi, poder de decisão distribuído igualmente vira, na prática, poder de veto. Basta um herdeiro discordar para travar tudo.

Foi o que aconteceu. Um dos filhos, Leonardo Maria, tentou comprar a participação de dois irmãos, num acordo de 10 bilhões de euros aprovado pela família em abril

O plano perdeu força quando as ações da EssilorLuxottica caíram quase pela metade em relação ao pico, reduzindo o valor dos ativos disponíveis para financiar a operação. Some-se a isso a tentativa de incluir 1 bilhão de euros de dívida pessoal no pacote, e o conselho dividido da holding simplesmente não deu aval.

Hoje a família negocia separar a participação em óculos dos investimentos financeiros em bancos e seguradoras, numa tentativa de destravar o impasse. 

Mas a resistência interna segue forte, e qualquer mudança depende de aprovação judicial em Luxemburgo, onde a holding está sediada.

Uma advogada especializada em sucessão familiar, consultada pela reportagem que originou este caso, resumiu o problema com precisão: colocar todos os herdeiros em pé de igualdade, ignorando diferença de idade e de interesse, foi um erro.

O que isso ensina sobre sucessão

Igualdade não é o mesmo que justiça

Dividir participação de forma idêntica entre herdeiros parece a solução mais neutra. Na prática, ignora que cada herdeiro tem interesse, energia e visão de futuro diferentes para o negócio. Um quer vender. Outro quer expandir. Um terceiro só quer dividendo. 

Sucessão bem estruturada não busca igualdade matemática. Busca papel claro para cada pessoa envolvida.

Consenso obrigatório pode virar paralisia

Exigir unanimidade parece proteção contra decisão precipitada. Na prática, transforma qualquer discordância pontual em trava permanente. Empresa que sobrevive a gerações precisa de mecanismo de desempate definido antes da crise, não debatido no meio dela.

Governança não se resolve só com estrutura jurídica

Del Vecchio colocou executivos de confiança no comando e definiu regras formais de sucessão. Mesmo assim, a disputa aconteceu. Estrutura no papel não substitui alinhamento real entre as pessoas envolvidas. 

Conselho consultivo, quando bem usado, existe para trabalhar esse alinhamento antes que ele vire litígio.

Sucessão deve ser testada em vida, não só planejada no testamento

O plano de Del Vecchio nunca foi validado com o fundador ainda por perto para ajustar o que não funcionasse. 

Toda estrutura de sucessão deveria passar por simulação real, com o patriarca ou matriarca ainda presente para mediar os primeiros atritos, antes que eles apareçam sem essa mediação.

Ativo em disputa perde valor todos os dias

Enquanto a briga segue, o valor de mercado da EssilorLuxottica caiu significativamente, reduzindo em bilhões o patrimônio disponível para a própria solução do conflito. 

Disputa de sucessão não é neutra. Ela corrói o próprio patrimônio que está sendo disputado, enquanto se arrasta.

Aprendizado 

Nenhuma empresa está livre desse risco, independente do tamanho. O que separa uma sucessão bem-sucedida de uma que vira notícia internacional não é o tamanho do patrimônio. 

É a qualidade da estrutura de decisão construída antes da crise, e a disposição de testar essa estrutura enquanto ainda há tempo de ajustá-la.

Se você lidera uma empresa familiar, a pergunta não é se um dia vai existir divergência entre herdeiros. É se, quando ela aparecer, vai existir um caminho claro para resolvê-la, ou uma trava que só cresce com o tempo.

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