Por dentro dos Conselhos no Brasil: quem decide, quanto ganha e por que o futuro exige mudanças

Por dentro dos Conselhos no Brasil: quem decide, quanto ganha e por que o futuro exige mudanças

O mundo corporativo brasileiro vive uma transformação silenciosa, e, ao mesmo tempo, urgente. 

Nos bastidores das empresas, quem ocupa as cadeiras de conselhos consultivos, fiscais e de administração é responsável por decisões que moldam trajetórias, riscos e oportunidades. 

Mas afinal, quem são esses profissionais? Como trabalham? E por que suas angústias revelam tanto sobre o futuro da governança no país?

Se você quer entender o que realmente acontece dentro dos boards, e por que isso importa para qualquer líder, siga lendo. Este artigo foi pensado para te guiar, passo a passo, pelas principais tendências e dados sobre conselheiros no Brasil. Boa leitura! 

O retrato atual dos conselhos brasileiros e o que ele revela

Nos últimos anos, governança corporativa deixou de ser apenas uma exigência de estrutura para se tornar um ativo estratégico. Ainda assim, a fotografia atual dos conselhos no Brasil mostra uma realidade que avança… mas muito menos do que deveria.

Segundo o estudo Board Trends Brazil 2025, realizado pelo Evermonte Institute, a maior parte dos conselheiros brasileiros segue um padrão bastante homogêneo:

  • 77,4% são homens
  • 51,5% têm entre 51 e 60 anos
  • Mais de 36% vêm de carreiras em finanças e economia
  • Apenas 12% têm origem em tecnologia
  • E menos de 8% dos conselhos consultivos têm mulheres

É um cenário que contrasta com pesquisas globais: McKinsey, BCG e Deloitte mostram que empresas diversas inovam mais, entregam resultados superiores e são mais resilientes a crises. Mesmo assim, essa pluralidade ainda engatinha no Brasil. Por quê?

Porque, historicamente, os conselhos foram montados para suprir lacunas financeiras e regulatórias, não para construir inovação, cultura ou transformação digital.

Essa desconexão entre estratégia de negócio e composição do board é justamente um dos entraves mais perceptíveis. 

Transição lenta, mas necessária: os novos conselheiros

Apesar da herança tradicional, há sinais de renovação chegando aos boards brasileiros. De acordo com o estudo:

  • 34,6% dos conselheiros começaram suas atuações após 2020, indicando renovação.
  • Perfis ligados à tecnologia, digital, ESG e sustentabilidade estão ganhando espaço.
  • Áreas antes periféricas, como cultura, pessoas, diversidade e IA, estão se “seniorizando”, assumindo peso estratégico maior.

Em outras palavras: o perfil do conselheiro está deixando de ser apenas técnico e financeiro para se tornar mais multidisciplinar, conectado às novas dinâmicas sociais, digitais e humanas.

Mas esse movimento ainda convive com um desafio: longevidade exagerada nos mandatos. Muitos conselheiros permanecem anos, às vezes décadas, sem processos formais de avaliação ou substituição. 

O problema? Falta oxigenação, surgem zonas de conforto e o pensamento fica repetitivo, exatamente o oposto do que um conselho deveria fomentar.

Quanto ganham os conselheiros no Brasil? (E por que a remuneração ainda é conservadora)

A remuneração é sempre uma das curiosidades mais buscadas, e os números ajudam a entender como o Brasil se posiciona no cenário global.

Faixa salarial predominante

  • 80% dos conselheiros ganham entre R$ 15 mil e R$ 30 mil por mês
    16,5% ganham até R$ 50 mil
  • Apenas 3% ultrapassam R$ 50 mil por mês

Esses valores variam conforme porte, setor e localização da empresa. Nos grandes grupos, especialmente os listados em bolsa, as faixas superiores aparecem com mais frequência.

Um modelo ainda pouco moderno

O dado mais revelador é este:

  • 70,7% não têm remuneração vinculada ao desempenho da empresa.
  • 75,2% recebem remuneração fixa.
  • Apenas 3,8% têm pagamento atrelado à performance do negócio.

Ou seja: apesar de ocuparem cadeiras estratégicas, boa parte dos conselheiros ainda não é incentivada sob métricas de longo prazo, o que mostra o quanto o modelo brasileiro precisa avançar.

Falta de mulheres: um sintoma que vai além da representatividade

Quando o tema é diversidade, a fotografia é ainda mais dura:

  • 27,1% dos conselhos não têm nenhuma mulher.
  • A maioria tem apenas 1 ou 2 conselheiras.
  • Conselhos consultivos contam com apenas 7,6% de mulheres.

Mesmo com avanços recentes, especialmente após 2020, o ritmo de mudança é lento. Estimativas da Deloitte sugerem que, no ritmo atual, a equidade de gênero só será alcançada em 2038.

E isso não é apenas um tema de inclusão, é estratégico. Menor diversidade significa menor capacidade de questionamento, menor criatividade e menor visão de risco. É disfunção de governança, não de RH.

O que tira o sono dos conselheiros no Brasil?

A pesquisa mostra que os principais desafios dos boards brasileiros se concentram em três frentes:

1. Gestão de riscos (57,9%)

Crises globais, volatilidade econômica, mudanças regulatórias e ameaças cibernéticas ampliaram significativamente a complexidade da gestão de riscos.

2. Sucessão e desenvolvimento de lideranças (57,9%)

O famoso “plano sucessório” ainda é frágil em muitas empresas, especialmente as familiares.

3. Transformação digital e inovação (57,1%)

Por último, muitos boards ainda não sabem como discutir tecnologia de forma estratégica, e isso abre espaço para decisões desatualizadas ou lentas.

Os entraves que ainda seguram a evolução dos conselhos

Mesmo com os avanços, alguns obstáculos continuam pesando:

  • Resistência à mudança por parte de acionistas (38,3%)
  • Falta de mecanismos para substituir conselheiros (19,5%)
  • Pouco foco em diversidade entre prioridades estratégicas

Aliás, em um outro estudo da Evermonte, a diversidade aparece como a última tendência listada pelas empresas em 2025, um sinal claro de que algumas agendas perderam força no discurso.

A questão é: as empresas não podem evoluir se seus conselhos não evoluírem antes. Boa governança não é estática; é reinvenção contínua.

O conselho do futuro precisa ser plural, ousado e inquieto

O cenário atual dos conselhos no Brasil mostra avanços, mas revela um desafio central: a necessidade urgente de diversificação, renovação e modernização desses colegiados.

Conselhos fortes constroem empresas fortes. Conselhos diversos constroem empresas mais inteligentes. Conselhos atuais constroem futuros mais sustentáveis.

Afinal, “Sem reinvenção, a diversidade de pensamento também é comprometida.”

Se o Brasil quiser chegar lá, essa reinvenção precisa começar agora.

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